Just in Case You’re Interested: Duffy, um grito perdido do hard rock setentista

Por Giancarlo D'Anello


No baú do rock encontram-se muitos fundos. Nos lapsos obscuros da história do gênero, muitas bandas transitam entre o semiesquecimento e o resgate seletivo em antologias, documentários e reimpressões, que ajudam a manter a memória de um empreendimento musical entre aqueles que cultuam as pedras rolantes não só como estilo musical, mas também como um estilo de se relacionar com o próprio tempo.

A banda Duffy foi formada em Londres, no início dos anos 70, por 5 caras com pouco mais de 20 anos de idade à época: Stuart Reffold, vocalista, Barry Coote, guitarrista, Joe Nanson, tecladista, Patrick Sarjeant, baixista e Will Wright, baterista, amigos que se conheceram nos circuitos universitários de Cambridge e Londres.

Nos ensaios, a musicalidade que foi se desenvolvendo possuía claras influências da sonoridade dos primórdios do Deep Purple, Uriah Heep, Humble Pie e Jethro Tull, o tipo de som que estava em voga entre os jovens britânicos do início da década e que podia agradar a vários tipos de gostos rockeiros da época. Não possuía a marca pesada da cena de Birmingham, que já ia delineando o heavy metal primitivo, nem tão progressiva como a cena londrina, que começava a ver o estopim de Pink Floyd e Yes. Era um som de convergência.

Passaram a tocar com frequência nos circuitos universitários, pubs e clubes noturnos de todo o eixo centro-norte da Inglaterra, como o Marquee, Fishmongers Arms e Eel Pie Island, em Londres, The Star Hotel, em Croydon, The Mothers, em Birmighan, entre outros.

Depois que adquiriram algum nome nas cenas locais, passaram a ser convidados para participar de festivais de rock maiores, chegando a abrir para o Deep Purple no Pop Monster em 1971, até que conheceram, durante algum desses shows, o produtor suíço Stephen Sulke, que já havia trabalhado com Santana, Melanie, Aretha Franklin e Buddy Miles.

Sulke se interessou pelas músicas da banda e os convidou para gravar o debut do quinteto na Suíça, onde possuía contatos com estúdios, engenheiros de som e gente ligada à indústria musical que poderia se interessar pelo trabalho do grupo. O resultado foi o disco Just in Case You’re Interested, prensado originalmente pela gravadora alemã Mabel Records em 1971 e lançado no Brasil pela Central Park Records em 1974.

O lado A começa com Matchbox, um típico hard rock setentista, com um teclado marcante claramente inspirado no trabalho de Jon Lord e solos de guitarra que se intercalam em sequências melódicas calmas e pesadas.

A próxima música, Long Lost Friend, é uma balada ritmada com dedilhado no violão que segue num crescente harmônico e vai finalizando com um coro bem presente de backin’ vocals e solo de guitarra de Coote ao mesmo tempo. Uma música delicada e forte, que possui a típica sonoridade do electric folk que marcou artistas como Donovan.

Judgment Day inicia com um riff de guitarra pesado e ritmado junto com um órgão bem presente que atinge seu ápice a partir do 1:20, quando a bateria e as cordas entram numa simbiose inesperada e marcante, mudando de ares novamente pouco depois do meio da música até o final, quando o clima se desenvolve para o progressivo. Talvez uma das faixas mais interessantes do álbum.

Amie também é uma balada swingada baseada no dedilhado do violão que se alterna entre momentos mais calmos e mais agitados, em que os backin’ vocals crescem e dão força melódica a todo o conjunto. Uma característica da banda presente em todo o álbum.

It’s My Life é uma vertida de estrutura mais pop da banda. Uma música com um refrão inteligente que agrada logo de cara e que complementa organicamente o início da canção, mais calmo e indefinido.

O lado B abre com o single do disco. Rock Solid segue a linha clássica do hard rock setentista: é calcado no riff de guitarra inicial que muda de sequência harmônica para afluir no refrão, que antecede o solo de guitarra, para então voltar ciclicamente à sua fase inicial. Esta música obteve algum êxito comercial, e chegou a fazer parte de coletâneas de artistas diversos nos anos 70.

A próxima música com certeza é o ponto mais alto do disco. A releitura de Don’t let me be Misunderstood, canção que ficou famosa na voz de Nina Simone, é genial, e mostra Duffy em seu momento mais brilhante do disco. A releitura inicia-se com um clima totalmente progressivo, com o órgão e baixo pautando e desenvolvendo gradualmente a estrutura da música, até que entram a guitarra de Cooter e a voz de Stuart Reffold. A releitura intercala rítmicas e surpreende pela execução, não alcançando nenhum resultado óbvio, pelo contrário. Extremamente recomendável.

Tell Me é a segunda música de trabalho do disco, que serviu de lado B para o single de Rock Solid. Segue com características típicas da sonoridade do disco, entre as quais as intercalações de sequências harmônicas, a excelente elaboração de backing vocals e os belos dedilhados, misturando o folk e o progressivo.

A próxima música é Riverside, um hard rock mais swingado, com o uso do wah-wah na execução do riff e com solos de guitarra contínuos, perpassando por todo o tempo. Canção bem interessante e que se destaca no conjunto da obra.

Por fim temos Place to Die, a canção que fecha o disco. Belíssima, inicia com o dedilhado mais melódico de todas as músicas da banda e mantém o prog-folk acústico durante todo o tempo, sem o uso de guitarras. Destaque também para a letra, uma das mais trabalhadas. Place to Die encerra o disco de forma bela, soturna e sublime.

Apesar de tudo, Just In Case You’re Interested não alcançou êxito nos circuitos comerciais, sendo condenado quase ao esquecimento. Foi lançado apenas na Alemanha (Mabel Records), França (Soul Records) e Brasil (Central Park Records), não tendo recebido nenhuma prensagem no Reino Unido. Alguns anos depois, a banda mudou de nome para Scruffy Duffy e lançou outro ótimo álbum em 1974, mas que também não vingou, fazendo com que a banda encerrasse suas atividades logo em seguida.

O álbum foi relançado pela Central Park Records em formato digital e citado pelo professor e pesquisador musical brasileiro Wagner Xavier, em sua enciclopédia musical “Rock Raro vol. II”, como um dos destaques do rock obscuro da década de 70. Vale a pena conferir, apenas no caso de você se interessar.

Publicado em: 2019-02-01
Tags: rock

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